Dicas de leitura

Interpretar o mundo através de boas leituras
Ler vai além da apropriação do código escrito: é uma forma de se reconhecer no mundo, de ampliar a criatividade, a criticidade e de sonhar um mundo melhor. Mas nem todos tiveram a oportunidade de descobrir a “virtude da leitura”, e muitos jovens sequer têm acesso a obras literárias de qualidade, seja por dificuldades econômicas, seja pela falta de estímulo. 

Disponibilizamos a entrevista com o escritor e ativista cultural argentino MEMPO GIARDINELLI, veiculada na Revista Mundo Jovem em março de 2015 para uma melhor compreensão sobre a relação da leitura como um direito social.

Qual é a importância da leitura para o desenvolvimento de um país?
Comecei a ler e escrever quando era ainda pequeno, e já com 20 anos de idade comecei a compreender que a questão não era somente escrever. Pode-se frequentar alguma oficina literária, receber algum conselho, mas a essência da literatura está no ato de ler, na leitura, no livro. O embrião da literatura é a leitura. A sociedade da América Latina é muito atrasada, não somente porque aqui existe fome, atraso cultural, muita interferência da televisão, mas é também porque os povos não têm acesso à literatura. A boa literatura existe nestes países, mas o povo não chega até ela. No Brasil, por exemplo, um dos maiores escritores, João Guimarães Rosa, não é popular. Na Argentina, Jorge Luis Borges é conhecido porque é famoso, esteve na televisão, mas sua obra literária não é conhecida pela maioria dos argentinos. Há meio século, quando deixamos de ser uma sociedade leitora, passamos ao terror, à censura, à perseguição, à ditadura, ao medo, à queima de bibliotecas e de editoras. E, assim, o paradigma de ascensão social, que era a leitura, foi destruído e substituído pelo paradigma do individualismo e da especulação, que hoje impera em vastos setores sociais.

Como desenvolver a prática da leitura?
À sistematização do pensamento e das ações que ajudam a formar e sustentar uma sociedade que lê de modo consistente e habitual, chamo "Pedagogia da Leitura". E com certeza é uma pedagogia que capacita o cidadão para exercer, controlar e melhorar a democracia. Defendo que deve existir uma estruturação das políticas de leitura em nossos países [da América Latina], onde as bibliotecas sejam um espaço de combate à exclusão social, uma vez que conduzem à reflexão, à crítica e ao questionamento, pois somente assim os leitores-cidadãos poderão intervir nos destinos de sua comunidade, de sua cidade, de seu país e, ao mesmo tempo, poderão conhecer os acontecimentos mundiais que, num mundo globalizado, afetam o seu futuro. E há algo mais que se pode fazer na América Latina nesse sentido: a especialista colombiana Sílvia Castrillón aconselha que "as bibliotecas estabeleçam um objetivo político, social e cultural muito claro e, a partir dele, formulem seus planos de trabalho, suas programações e atividades, pois é indispensável reconhecer o caráter político da educação e da leitura, da escola e das bibliotecas como centros motores de transformação social desta árdua realidade que nos circunda".

Como se relacionam leitura e conhecimento?
A leitura é o único caminho para o conhecimento. Se você quer saber alguma coisa, se quer chegar a um entendimento, se quer compreender, tem que ler. Se você não ler, não poderá saber. Pode até ter uma vaga ideia, uma informação através de alguém, mas, sem ler, você não sabe. A aprendizagem deve ser lenta, pausada, serena, porque só assim é profunda (não superficial), e o pensamento resultante dela tem perspectiva de qualidade. Para alcançar o conhecimento, para saber, tudo o que temos que fazer é ler. Não existem atalhos, não há substituição possível. Aprender literatura não vai por outro caminho senão o de ler muito e ler o melhor.

No meio juvenil, se lê pouco hoje em dia?
Em parte, sim, mas não é totalmente uma verdade. É uma ideia injusta, porque é uma forma de culpar os estudantes, quando nós sabemos que quase sempre o problema começa pelos adultos. As crianças querem ler, valorizam e gostam das leituras que provêm dos adultos, e os adultos que não leem é porque não conhecem a simples virtude da leitura. Porém esta pergunta aponta que é fundamental para bibliotecários e professores de língua e literatura regressarem à boa leitura e urgentemente voltarem a ensinar literatura. Creio, inclusive, que a carência disso é parte do grande problema pedagógico atual, o que não é uma crítica à docência, mas um reconhecimento de que fomos vítimas de ditaduras, autoritarismo, censura e de um novo instrumento de má educação que se impôs desde os anos 1960-1970: a televisão. Nos tempos modernos, o principal educa¬dor da sociedade é a televisão, e é o principal mal educador. Então, temos que auxiliar bibliotecários, professores, estudantes e a sociedade de um modo geral, que foram submetidos nos últimos anos a estas questionáveis "modas pedagógicas" que fizeram do prazer literário um trabalho pesado.

O uso da internet interfere na questão da leitura?
Não, a internet não tem nada a ver com isso: ela é uma possibilidade tecnológica bem-vinda. Aliás, a internet não é problema para a não leitura e também não é solução para a leitura. Não faz nenhum sentido seguir pensando e dizendo que o problema da falta de leitura deve-se à tecnologia da modernidade.

E sobre a interdisciplinaridade?
Concordo que as disciplinas escolares devem andar juntas. O estudo da História, das Ciências da Educação, da Filosofia e de outras disciplinas mais, prescinde cada vez mais da grande Li-teratura Universal. Por exemplo, como saber sobre a Grécia sem ler Homero, a Odisseia, a Ilíada? O conhecimento implica em leitura e em ler bem, e ler melhor a produção intelectual do seu país e do mundo, e de todas as épocas. Portanto a leitura das produções literárias de áreas diversificadas, e não só das áreas relacionadas à literatura, é fundamental para a formação e o conhecimento.

A pessoa é o que ela lê?
Sim, a pessoa é o que lê, e a sociedade também. Uma sociedade que lê é uma sociedade que tem conhecimento. Uma sociedade que não lê é embrutecida: não se apropriou do saber. Toda gente sabe que é importante ler, porém nem todos leem. O drama dos nossos países latino-americanos é a evidência de que muitos profissionais de diferentes áreas e atividades deixaram de ler. Quem lê resgata a maravilhosa consciência do descobrimento do saber e a alegria da liberdade que nos dá a leitura!

O que existe hoje na sua biblioteca particular?
Muita variedade. Muito de histórias, por exemplo. Sempre digo que sou escritor porque houve biblioteca em minha casa: algo assim de simples e de magnífico. Minha casa, em Chaco, era um lugar humilde, porém lá minha mãe e minha irmã (mais velha do que eu) liam todo o tempo. O móvel mais importante da sala de jantar era uma estante com todos os livros que podíamos tomar para ler, julgar e até desfazer-se deles, caso fossem inconvenientes. E eu descobri todos, um por um, e cito aqui alguns que achei adoráveis, de Monteiro Lobato, traduzidos e impressos numa preciosa edição ilustrada que ainda conservo. A literatura me legou suas palavras, sentimentos, impulsividade, e assim me fiz leitor de Júlio Verne, Kafka, Salgari, Stevenson, depois de Dostoiévsky, Melville, Lagerkvist, Faulkner e Hemingway. Desde então minha vida não tem sido outra coisa do que levar minhas bibliotecas, como um caracol leva sua concha. E por ser um leitor aficcionado, aprendi que nós, seres humanos, somos em verdade o que temos lido. Porém, desafortunadamente, somos também o que não lemos.

Fale algo sobre as histórias contadas oralmente.
Cresci em meio à prática de leitura. A leitura, a literatura, a conversação, a narração constante de histórias eram como uma conversa de amigas, e sua auxiliar permanente era a biblioteca: fonte inesgotável de comparações, metáforas, sonhos e possibilidades. Os melhores momentos de minha vida passei escutando narrações de intrigas, ilusões, amores e desamores, sonhos e frustrações, da boca de mulheres que liam muito e tinham a imaginação e a criatividade bem treinadas. E a criança tem que ver que a história sai das páginas do livro. O livro é o endereço da história. Para a criança bem pequena, a história tem que ser mediada, e as avós são uma mediação maravilhosa, porque elas têm amor, têm tempo. As crianças acreditam nas pessoas velhas. Então, em Chaco, meados da década de 1990, vimos que fazia falta um trabalho de campo, para além de debater e estudar a questão da iletralidade. Criamos, então, um voluntariado para trabalhar em programas concretos. Nasceu o programa de Avós Contadoras de Contos, depois Pediatras Voluntários e, logo, Amigos Leitores. Levamos autores nas escolas, onde previamente estimulá¬vamos professores, bibliotecários e alunos para que lessem textos deles, e a resposta foi muito boa. Os assistentes para esse trabalho cresceram em quantidade e em qualidade de ideias. Acreditamos, por isso, na eficiência desta Pedagogia da Leitura. Podemos dizer, com orgulho, que a fundação que presido contribuiu para criar consciência sobre a importância da leitura, e hoje está incluída em todas as agendas culturais e educativas da Argentina. São quase 75 cidades, com mais de três mil avós trabalhando, visitando as crianças para ler histórias.

Há um resgate da identidade latino-americana através da leitura de histórias?
Certamente, pois se a literatura, como penso, é a vida por escrito, e é transcurso, caleidoscópio de letras, demonstração do eterno e do infinito, isso se transmite pela leitura e pela narração. E o trabalho do escritor consiste nisso: o torturante e maravilhoso empenho, o duro e rigoroso trabalho de polir a prosa, clarificar o sentido, consolidar as ideias. Escrever para conhecer, para alcançar e buscar indagações, e oferecer ao leitor, por consequência, o resgate e a apropriação de sua identidade cultural.

 
Ativismo em favor da leitura
Segundo o dicionário, ativista é aquele que luta por uma causa ou ideologia, e Mempo lutou tanto pela Pedagogia da Leitura como instrumento para exercer e melhorar a democracia, que suas ideias viraram política de Estado na Argentina.
Hoje, é um dos intelectuais latino-americanos mais expressivos do mundo, tendo ministrado cursos, seminários e oficinas em mais de uma centena de universidades ao redor da Europa e da América. Sua obra está traduzida em 20 idiomas e já recebeu diversos prêmios importantes, como o Rómulo Gallegos, que agracia as melhores produções literárias em língua castelhana e que já contemplou autores como Vargas Llosa e Gabriel García Márquez.
Em meados de 1990, fundou uma instituição dedicada ao fomento da leitura, à docência e aos estudos da Pedagogia da Leitura. O projeto Abuelas que Cuentan Cuentos (Avós que Contam Contos) está presente em quase 75 cidades argentinas e conta com mais de três mil avós que visitam crianças para ler histórias. É por isso que o Mundo Jovem considera Mempo Giardinelli um ativista cultural, sim, e dos bons.
Em uma breve conversa, pouco antes da sua palestra na Feira do Livro de Porto Alegre, o autor falou sobre a vocação para escrever e foi enfático ao dizer: “A essência da literatura está no ato de ler. Aprender literatura (ler, escrever e interpretar) não vai por outro caminho senão o de ler muito e ler o melhor”.
Mempo também reiterou a responsabilidade do Estado e da sociedade na construção pedagógica do ser. De acordo com o autor, é preciso reestruturar as políticas de leitura na América Latina para que a população tenha acesso ao conhecimento e assim aprenda a interpretar seu cotidiano e identificar os acontecimentos globais que afetam o seu futuro. Declarou: “Uma sociedade que não lê é embrutecida. Se você quer compreender, tem que ler”.
Para o argentino, somente a leitura pode nos conduzir à reflexão, à crítica e ao questio-namento. Ainda fez uma analogia, comparando o exercício da literatura ao ensino de violão: “Todo mundo pode tocar guitarra, mas sem estudar música você nunca tocará para além do seu círculo familiar em algum domingo”, afirmou.


Fonte: Revista Mundo Jovem, edição 454, março de 2015.